Na última semana, aconteceu o desfile masculino da Prada e logo a marca se viu no centro de uma polêmica. A grife italiana apresentou uma sandália masculina em sua coleção de verão 2026 com tiras de couro, costura rústica e uma cara super artesanal. O problema? Ela era praticamente idêntica as tradicionais sandálias Kolhapuri chappal, um modelo indiano que existe há séculos, feito à mão por artesãos de Maharashtra.
Sem menção à origem, o lançamento logo foi apontado como apropriação cultural pela comunidade indiana. A repercussão foi tanta que a Prada, dias depois, admitiu que sim, se inspirou nas sandálias indianas e se mostrou disposta a conversar com o MACCIA (órgão comercial indiano).
Esse caso nos faz voltar a uma pergunta: quando uma peça deixa de ser homenagem e vira apropriação?

Foto: Tabi (Divulgação)
Não dá para não lembrar da famosa Tabi boot, que você provavelmente conhece como criação de Martin Margiela, mas que está longe de ter nascido nas passarelas francesas. A tabi é um calçado tradicional japonês, com a característica divisão entre os dedos, e existe há mais de 600 anos. Margiela nunca escondeu a inspiração, mas durante muito tempo seu nome foi mais associado ao modelo do que o Japão em si.
Assim como as sandálias Kolhapuri, a Tabi virou ícone nas mãos do Ocidente, e muita gente sequer sabe sua verdadeira origem. Há quem diga que o Japão criou a tabi, mas foi Margiela quem a apresentou para o mundo.
Existe algo de muito positivo quando uma marca global recria e apresenta ao mundo um modelo tradicional — afinal, estética se espalha e alcança novos públicos. A inspiração não é o problema, o apagamento da origem, quando aquela criação representa uma cultura, é.

Foto: Prada (Reprodução/Vogue Runway)
Até onde vai o papel da moda como difusora cultural e onde ela começa a virar apropriação? É uma linha tênue, mas talvez a resposta para esse dilema seja mais simples do que parece.
Segundo a Vogue Business, em um momento de incerteza econômica, o craftsmanship virou a moeda mais valiosa do luxo contemporâneo. O feito à mão, o detalhe imperfeito, a herança, tudo isso passou a ser símbolo de desejo. Seria genial que, ao se inspirar em uma criação tradicional de uma região, o luxo aproveitasse para elevar também a sua origem: a mão que faz, o saber que passa de geração em geração.
Não se trata de pedir que grandes marcas parem de se inspirar em criações tradicionais marcantes de uma região. Pelo contrário, é lindo ver uma cultura representada na passarela. Mas para que as pessoas por trás dessas tradições não se sintam apagadas, é válido se unir a elas. Com isso, a criação chega mais longe sem perder suas raízes.
Para você, quando uma inspiração vira apropriação?
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Fonte: Steal the Look